Dados Técnicos
Trivandrum - A aurora
Yonne Sofhia Forcellini
Scortecci Editora
Ficção
ISBN 978-85-366-1039-9
Formato 14 x 21 - 296 págs.
1ª edição - 2008
Trivandrum - A aurora

O espelho e o contra-espelho
Na abertura do livro a autora informa que aprendeu a amar a Índia “através de vários caminhos, que se entrelaçaram”. Adquiriu, em cursos, leituras, amizades, viagens, uma gama de conhecimentos e uma vivida paixão pela sua civilização, dos primórdios aos nossos dias, e traz ao vivo isto, uma estória fascinante e ficcionada, em visão impressionista e sensível, que leva o leitor a sentir e palpitar com o descortinar dessa civilização multi-milenar e a palmilhar os caminhos com os mesmos sinais sensíveis de espiritualidade que permeiam a alma dos seus filhos. Tudo é exposto em pulsação dinâmica, sem deslizes didáticos, que falseariam a ficção, centrada na capital paulista e alcançando o país distante.
Pouco temos visto um romance assim concebido, com bela intuição e força criadoras, a caminho do psicológico, sem resvalar para o psicologismo redundante; pouco temos visto, com tanta leveza de trato, quantos desencontros, benquerenças, malquerenças, ambições, falsidades e egoísmos, em contraposição a um outro universo onde avulta a chama da riqueza espiritual, em busca dos tesouros irrevelados que cada ser humano possui; pouco temos visto a ganância e o dar-se em espelho e contra-espelho, no campo da arte escrita.
Adolfo, personagem principal, criatura sensível, é o ponto catalisador, sem se aperceber muito bem de tudo isto. Sente-se deslocado no universo dos negócios escusos, na paulicéia onde vive e se torna a repulsão libertadora ao contacto com outra cultura, que nem as voracidades das chamadas nações colonizadoras desmoronaram.
A obra, porém, tão bem treliçada e plena de meandros, não se polariza nesse balanceio pendular de luz e sombra. Toda ela é uma trama, diria em sarça-ardente, de egoísmos e bonanças. As desavenças entre poderosos de duas firmas paulistas, que se entredevoram, porque o deus dinheiro é a chave de tudo, mostram de que barro é feita a criatura humana, que sobe aos céus e desce aos infernos. É uma luta surda, calculada, terrivelmente mesquinha, e até o que se descobre no mundo dos negócios, com lampejos de honestidade por alguns que rodam na roda desse pião sem fio.
Adolfo, um sensitivo, direcionado para o mundo dos negócios, sem retaguarda familiar mas amparado por parente próximo, de vida em bom padrão social, é uma luz de popa de barco em busca do seu próprio porto seguro. Nesse mundo navega. Relaciona-se, ainda em São Paulo, com os primeiros sinaleiros que lhe apontarão as rotas primeiras de descortínios espirituais bem diferentes, lá distante. E por aí vai, meio levado sem querer, meio movido por seus propósitos outros, e, por fim, enfrentando óbices, com impulso próprio.
A obra é pontilhada de muitos negócios e surpresas, de suspenses, o enredo um tanto complexo na sucessão dos flashs, e uno, pronto e acabado, no seu todo, sem pontas soltas e desvios desnecessários, tornando-o limpidamente notável .Eis que é uma ficção impressionista. O psicológico que a envolve é tão marcante, que falar das personagens – que não são muitas, mas todas essenciais e necessárias – só serviria para descaracterizar a criação e desestruturar, ao olhar do leitor, essas peças tão bem postas no tabuleiro da vida.
Este romance é uma roldana poliédrica, com várias tomadas de cenas curtas, pulsantes e essenciais. Aqui tudo entra: a vida social e a paisagem paulistanas, o universo das personagens metidas nas negaças, conluios financeiros, interessantes conflitantes, e mais e mais... Quase uma danação em torno de Adolfo, que encontra paz em outras veredas, bem diversas do mundo da querida noiva, joguete, coitada, de falsidades inapercebidas, distanciando-a de Adolfo.
A autora não esquece nada. Descreve cada personagem por dentro e por fora, tal como descreve os ambientes, as paisagens, em São Paulo ou na Índia, as viagens de Adolfo no seu “novo mundo”, numa unção perfeita do descritivo com o narrativo.
E tudo é transferido praticamente para oi campo das falas, numa linguagem direta e escorreita, em sutil simplicidade, aquela simplicidade que nada tem de facilidade. Vê-se que a autora domina o tema com segurança, é versada na história e cultura indianas, com os seus desdobramentos espirituais, sem deslize apologético, e voleia bem as peças enxadrísticas dos negócios financeiros, honestos ou não.
A romancista desce fundo, aqui ou lá distante, e na arena joga as personagens, que jogam o jogo, conscientemente ou não, das aflições do nosso mundo, que, apesar de tudo, possui sinalizações em busca da felicidade.
Sai da leitura com uma interrogação muito grande: este mundo, que tem tudo para ser melhor, por que se afunda num poço escorregadio e sem sol no horizonte? Sem vezo didático, aqui temos uma das respostas sedutoras e belas.
Tão fácil é tirar a prova. Bastará ler o livro.Caio Porfírio Carneiro

Yonne Sofhia Forcellini

Yonne Sophia Forcellini nasceu em São Paulo,  Capital. É jornalista formada pela PUC, escritora, pintora, e tradutora pública. Como jornalista, trabalhou nos jornais “O Tempo” e “O Diário de São Paulo”, na qualidade de repórter e,  a seguir, de cronista social. Manteve um programa na Rádio Bandeirante, “A Bandeirante a Serviço do Lar”.

Como escritora, publicou os romances “A Napolitana” e “Bepi Montagnin no Brasil”; a peça teatral “Páscoa na Floresta Verde”; o conto infantil “O Mundo Encantado de Zita e Luizito” e o livro de poesias “Anima Mea”.

Estudou piano com o Prof. Domingos Bentivegna, apresentando-se em vários recitais. Com o pintor J.B. Madureira aprendeu a compor telas a óleo e participou de exposições promovidas pela Prefeitura de São Bernardo do Campo. Foi aluna do Prof. Radamés Mosca, no Colégio Dante Alighieri e,  como representante daquele instituto, obteve o primeiro prêmio num concurso promovido pelo Governo do Estado de  São Paulo.

Foi vice-campeã em várias modalidades de atletismo e natação no campeonato estadual organizado pela FUPE e participou da equipe campeã de vôlei.

É inscrita na UBE (União Brasileira de Escritores); na ATPIESP (Associação dos radutores Públicos e Intérpretes Comerciais do Estado de São Paulo) e no Sindicato dos Jornalistas para o Estado de São Paulo.

Como membro do Sindicato dos Jornalistas,  fez parte da Diretoria e teve participação ativa na famosa greve de 1961. Integrou a Diretoria da ATPIESP e fundou o boletim informativo da entidade, hoje denominado “Ipsis Literis”.

Yonne Sophia precorreu vários países da Europa,  da América do Sul,  da África e da Ásia, estudando os idiomas para aprofundar seus conhecimentos sobre a etnia das populações, sua cultura,  sua arte, seu “modus vivendi” e, principalmente,  suas lendas e tendências místicas e religiosas.

O que mais a impressionou foi o alto grau de espiritualidade do indiano,  que serviu de tema para “Trivandrum – A Aurora” e para o livro de contos “Prisioneiros de Maya”, que pretende lançar em breve.