Dados Técnicos
Cheiro de Terra - Contos Fazendeiros
Lucília Junqueira de Almeida Prado
Scortecci Editora
Contos
ISBN 978-85-366-1164-8
Formato 16 x 23 - 304 págs.
1ª edição - 2008
Cheiro de Terra - Contos Fazendeiros
Colar sem falsos brilhos
O que vem ao vivo, de pronto, em qualquer texto ficcionado de Lucília Junqueira de Almeida Prado, é o tangível, o quase pal-pável das personagens, dos ambientes, das paisagens que o cercam. E sempre numa leveza de trato, ao nível dos meios tons, arma poderosíssima ao alcance só dos verdadeiros recriadores da realidade em dimensão artística. Parece, por isso, enganosamente, que tudo flui em plano linear e despretensioso. Eis, porém, o mistério da verdadeira ficção, porque é justamente na narração sem parcéis que o psicológico, sub-jacentemente, dá-lhe pulsações vívidas. Muito em particular nesta autora, que transfere qualquer his-tória praticamente para o campo das falas e o descritivo é apenas o essencial.
Estes contos são mais uma amostra, bem emblemática, da capacidade criadora da escritora, desde quando surgiu para as letras. Ela ficciona, com talento e arte, o romance, o conto, a novela, a lite-ratura juvenil, e desborda para a poesia. É dona de características próprias em quaisquer dos gêne-ros. Nos contos deste livro ela os expõe e espelha com habilidade objetiva notáveis. Abre o visor, dando a imediata impressão de que caminha para a novela, mas o fecha com arremate e precisão de contista. Mostra-se cinematográfica no descritivo, sempre belo na paisagem rural, e se aproxima – apenas se aproxima – do teatro na habilidade dos diálogos, que dão vida e alma às histórias e às perso-nagens. Vale-se muito do universo rural, como aqui, que conhece de tão perto e é parte do seu mundo de vivência própria. Eis porque, para além das histórias, tão reais e palpitantes, ela transcende a própria ficção, documentando, através delas, a vida social dessa parcela geográfica e humana, captando-a bem de dentro para fora, afastando-se do regionalismo estreito e redundante.
Em síntese assim, não há como analisar cada um dos contos. E eles pedem isto. Todos, do primeiro ao último, mostram o mesmo nível de qualidade, porque tudo aqui é pulsante, e o leitor, qualquer leitor, vê-se imediatamente dentro de cada texto, assistindo de perto e quase participando destes dramas de vida, expostos com tanto senso de oportunidade e límpido comando narrativo.
Como destacar o melhor ou os melhores trabalhos aqui reunidos? Os temas não se repetem. O café, a lavoura, os pequenos grandes dramas familiares, os amores, os entrechoques de vivências e convivências... A vida rural, enfim. Citamos Dom Juan da roça pela sua dimensão de quase miniconto, em contra-ponto a De sol a sol ou A moça dos olhos d´água, por exemplo, pelo andamento capitulado que possuem. E se deve destacar: a autora se vale da primeira pessoa ou da terceira para ficcionar, sem nenhuma perda de qualidade.
Conhecemos de perto a arte lite-rária de Lucília Junqueira de Almeida Prado. É contadora de história de vôos surpreendentes. E a vontade imediata que surge é analisar cada uma destas peças.
Diante da impossibilidade, é ler o livro e conhecer e conviver com os conflitos humanos, humaníssimos, a sua geografia e o meio social em que se desenvolvem.
“Até onde a vista alcança...”, assim começa a autora Para sempre, primeiro conto. Lidas as primeiras linhas o leitor chegará à última frase deste colar sem falsos brilhos. Caio Porfírio Carneiro
Lucília Junqueira de Almeida Prado
Lucília Junqueira de Almeida Prado nasceu em São Paulo. Passou toda sua infância numa fazenda perto da cidade de Conquista, do Triângulo Mineiro.
Voltou a São Paulo para fazer o ginásio no Colégio das Cônegas de Santo Agostinho (mais conhecido como "Des Oiseaux". Terminando este curso, fez Secretariado, Aliança Francesa, Cultura Inglesa e alguns cursos de literatura.
Sempre gostou muito de português e do professor da matéria, José Adelino D'Azevedo, guarda as melhores recordações e a alegria de ter sido ele o primeiro a vaticinar que ela seria escritora. Chamava-a para ler suas composições e narrações, de frente para a classe, sobre o estrado onde ficava sua escrivaninha. Quando terminava, ele que era português nato, tendo um metro e meio de altura, passava o braço pelas suas costas e dizia: "A m'inina vai ser escritora! A m'inina vai ser escritora!"
Aos 19 anos casou-se com um fazendeiro e voltou a morar numa fazenda entre as cidades de Orlândia e Morro Agudo. Assim realizou um sonho: voltar a morar no interior com tempo para muito escrever. Tem cinco filhos, onze netos e, por enquanto quatro bisnetos.
Este é seu primeiro romance para adultos (aliás uma novela), pois até "Sob as Asas da Aurora", escreveu 65 livros para a infância e juventude. Com seu segundo livro "Uma rua como aquela" ganhou o Jabuti 1971. Tem mais 8 prêmios sendo o mais importante e do "Pen Clube Internacional" pelo conjunto de suas obras.
Lucília foi presidente da "Academia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil" nos anos de 1980 e 1981. Em 1980 ganhou o diploma "Personalidade do Ano".