Dados Técnicos

A Paróquia Que Habitamos
Waldir de Luna Carneiro
Scortecci Editora
Contos
ISBN 978-85-366-0692-7
Formato 14 x 21 cm 
120 páginas
4ª edição - 2012

A Paróquia Que Habitamos - 4ª edição
“A destacar, de início, a fluência e a leveza do estilo, que prendem o leitor para além das próprias histórias. É uma maneira de dizer personalíssima, liberta de perigos coloridos e com aquela elegância que define, se pronto, o bom escritor, senhor de sua ferramenta. Curiosamente, estes contos têm o sabor de causos, mas com esses não se assemelham. Não se assemelham porque o autor, embora o toque humorístico, foge do apanhado folclórico, mesmo que “folclorize”com graça certas passagens nas diversas histórias que compõe o livro.

Não se mostra elíptico nos trechos narrativos, mas é nos diálogos, na força deles, através dos quais vem ao vivo o comportamento psicológico de cada  personagem. O mundo interior de todas elas traduz-se nos gestos e na contenção das falas, objetiva e essencial. Vê-se logo, longinquamente mas  presente, a força do teatrólogo. Por isso, em alguns contos, sentimo-los aproximarem-se do teatro, sem nunca se confundirem com ele. Os temas parecerão corriqueiros. Nada mais difícil, porém, do que transfigurar, em dimensão literária, o dia a dia da classe média, repetitivo, igual e de pequeninos dramas. E Waldir de Luna Carneiro aborda-o com inegável habilidade, a ponto de universalizar a geografia, que os pequenos dissabores são de todos os tempos e de todos os povos.

Os contos são muitos bons e trazem o traço unitário da fina verve e do rico humor. Mas uma verve e um humor despretenciosos. Diria até que, por serem assim, estes contos guardam, nas entrelinhas, traçaos de amargor. Citaria, ao acaso, o conto Dona Bolacha. Por trás do trecho aparentemente grotesco, fica a denuncia marcadamente maior contra o desatre ecológico, que é o primor da nossa civilização e a filosofia de nossos governantes. Por trás, igualmente, do quase anedótico em Tranferência de delegado, patenteia-se, em destaque que palpita, a vida quase nômade de um delegado, e a sua luta para não torná-la assim. A Paroquia que Habitamos, hoje, em terceira edição, é uma beleza de livro. A riqueza fotográfica das histórias leva o leitor a participar delas, em presença quase física. É um livro saborosíssimo, que se lê de corrida, porque poreja vida... Por isso é que o livro tráz, com a última página, o travo da saudade. E porque também, inapelavelmente, habitamos essa paróquia.
("Estado de Minas", 23.02.84)
Caio Porfírio Carneiro
Waldir de Luna Carneiro