SUBÚRBIO DA ARTE / Marcos de Carvalho

A metalinguagem, nos poemas aqui reunidos, tem uma função precisa, muito distante da meta-linguagem cabralina e de qualquer outra: ela funciona como válvula que admite ou não o ingresso de um determinado tema ou palavra. É assim: se tal ou qual reminiscência de infância, por exemplo, cabe no projeto poético do autor, ela pode entrar no poema: não entrará simplesmente por suas qualidades subjetivas. E, de algum modo, essa válvula funciona admiravelmente, pois poucas vezes uma reunião de poemas resulta em obra de coerência tão estrita. A essência da poesia, aqui, está na dialética entre a forma geral do poema e os pequenos detalhes micropoéticos – não como assunto, e sim como processo. Fica evidente a lição concretista de que num poema tudo conta, da ausência de uma vírgula às ambiguidades que subvertem o sentido de uma expressão gasta pelo uso. Aí chegam a caber na poesia ditos populares como “tinha o rei na barriga” e “fazer de besta”. E, de repente, um arremate súbito reverte totalmente expectativa criada pelo andamento anterior do poema. Ou, na avalanche de imagens processadas por esse modo personalíssimo de incorporar modos de sentir e de dizer, vivências e imaginações próprias e alheias, lá vem a nos surpreender a referência ao homem que espia um decote (“Emboscada”): subversivo, em tempos de histeria politicamente-correta, o poeta merece cadeia, como seu “último profeta” Woody Allen?
Eloésio Paulo

LUVA DE PELICA
A pele
não acolhe
todos os socos

Alguns
a deformam
por fora

outros
inflamam
por dentro

Mas
às vezes
a pele

é só passagem
o soco
não

a marca
nela não faz
paragem

Marcos de Carvalho nasceu em Alfenas, no ano de 1965, e teve uma infância entroncada pelo rural e o urbano, pelas goiabeiras e os paralelepípedos. Seguiu o destino de boa parte dos alfenenses de cursar Odontologia e foi para o Rio de Janeiro, onde às lides da dentística se somaram um curso noturno de Letras, um mestrado e um doutorado em Poética (UFRJ), um doutorado em Educação (UFF). Teve breve e reveladora incursão pela política, como Secretário de Educação e Cultura de Alfenas. Chegou, enfim, ao magistério federal, primeiro como professor de Filosofia da Educação na UFOP, depois como professor de Teoria da Literatura na UNIFAL-MG. A poesia surgiu cedo e maturou com demora em Marcos. Das primeiras participações em grupos poéticos, seguiu para uma profícua parceria com Eloésio Paulo, em meados da década de 1980. O único livro individual foi Breviário da neve nos trópicos, editado artesanalmente e distribuído entre os amigos por volta de 1994. Subúrbio da arte reúne parte de sua produção mais recente.

Serviço:

Subúrbio da Arte
Poemas
Marcos de Carvalho
Scortecci Editora
Poesia
ISBN 978-85-366-5645-8
Formato 14 x 21 cm 
116 páginas
1ª edição - 2018

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