PRESENTE DE NATAL / Lucília Junqueira de Almeida Prado

Lendo este "Presente de Natal", vem-nos à lembrança, mais detidamente, duas vertentes da ficção desta escritora, já referdas em apreciação de livro anterior. A primeira, a facilidade como transita do conto para a novela, gênero médio de ficção de definição nunca definitiva, porque não há no implícito “delimitação de fronteira entre a novela e o conto”, na afirmação do crítico Braga Montenegro. Como não há uma definição completa para o conto, tantas são elas, embora a melhor venha a ser, cremos, a de Daniel Rops: “Conto é a arte do implícito”.
Sabe-se, vê-se e sente-se que a abertura da novela é mais ampla, com a presença marcante do descritivo. Pois, para além do exposto acima referido para os dois gêneros, Lucília rompe com isto: há muito de implícito nas suas histórias longas e dá ritmo de novela nas elípticas.
A segunda vertente toma esta característica: a criação, situe-se no passado ou no presente, em qualquer espaço geográfico e agrupamentos humanos diferentes, flui e palpita sem um mínimo de perda de qualidade.
A ênfase desta repetição é para mostrar, em definitivo, que, para a escritora, o “documento” do tempo histórico, geográfico ou humano não obstaculariza sua força criadora. Isto não é para qualquer um. Arma poderosa apenas dos ficcionistas de primeiro plano.
Tome-se "Presente de Natal", que dá título ao livro. Uma “historinha” de quatro páginas, de pujança humana inigualável, que se pode chamar de obra-prima. Eis que, nesse mesmo ritmo, parte para ‘A Vida Apronta Cada Uma...’, onde a aflição familiar sobe patamares continuados. Segue-se ‘O Terreno’, em certa calmaria, para contrabalançá-lo com a solidão e o drama doído de ‘Companheiro, Velho de Guerra’...
Tais citações revelam, para além da variedade temática, o jogo multifacetado de atmosferas, comportamentos, fatos e ambientes que a autora expõe com leveza artística e facilidade espantosa. Tão admiráveis que os textos aqui reunidos, embora de datas diferentes, mantêm o mesmo nível de qualidade.
Surge, logo nas primeiras linhas de qualquer texto, em preeminência visual e fotográfica, a impressão de que a autora nele jogou, como de fato joga, toda a sua capacidade criativa. Isto é natural nela. Em ‘Nada é por Acaso’, ‘O Pantanal’, sua geografia e seu mundo, vêm para a sala do leitor. Do corriqueiro aos ressentimentos, das alegrias às tristezas, tudo corre nas suas criações em sensações humanas. Citação particular para ‘Pecados do Silêncio’, onde o ressentimento avulta.
São tantos os pontos, todos nodais, na ficção desta escritora, que bastará citar alguns, como os citados, para dar idéia da sua cosmovisão criadora.
Por ser dona de habilidades assim, possui ela a capacidade de descer o nível da linguagem, sem ruptura da linguagem personalíssima, e criar, como criou, obras da melhor qualidade para a juventude.
Citamos quase todos os textos, aqui reunidos, para mostrar como navega a escritora nas letras, sempre em pandas velas. O seu arco criador é completo. Dá vida e alma a qualquer coisa.
Até aos animais e às árvores do campo...
SP, 12/10/2008 
Caio Porfírio Carneiro

Lucília nasceu em São Paulo. Passou toda sua infância numa fazenda perto da cidade de Conquista, no Triângulo Mineiro.
Voltou a São Paulo para fazer o ginásio no Colégio das Cônegas de Santo Agostinho (mais conhecido como “Dês Oiseaux”). Terminando este curso, fez Secretariado, Aliança Francesa, Cultura Inglesa e alguns cursos de literatura.
Sempre gostou muito de português, e do professor da matéria José Adelino D'Azevedo, guarda as melhores recordações e a alegria de ter sido ele o primeiro a vaticinar que ela seria escritora. Chamava-a para ler suas composições e narrações, de frente para a classe, sobre o estrado onde ficava sua escrivaninha. Quando terminava, ele, que era português nato, tendo um metro e meio de altura, passava o braço pelas suas costas e dizia: “A m'inina vai ser escritora! A m'inina vai ser escritora!”
Aos 19 anos casou-se com um fazendeiro e voltou a morar numa fazenda entre as cidades de Orlândia e Morro Agudo. Assim realizou um sonho: voltar a morar no interior com tempo para muito escrever. Tem cinco filhos, onze netos e, por enquanto, quatro bisnetos.
Este é seu quarto livro de contos para adultos, pois que o primeiro chama-se "Cheiro de Terra", seguido de "A Vida tem Alvoradas" e "O Sonho de Cada Um". Até eles, escreveu 65 livros para a infância e juventude. Com seu segundo livro “Uma rua como aquela” ganhou o Jabuti 1971. Tem mais 8 prêmios sendo o mais importante o do “Pen Clube Internacional” pelo conjunto de suas obras.
Lucília foi presidente da “Academia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil” nos anos de 1980 e 1981. Em 1980 ganhou o diploma “Personalidade do Ano”.

Serviço:

Presente de Natal
Lucília Junqueira de Almeida Prado
Scortecci Editora
Contos
ISBN 978-85-366-1353-6
Formato 16 x 23 cm - 312 páginas
1ª edição - 2008

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