DUAS LUAS, UMA GUERRA / Maria Célia Ferrarez

Deixarei de lado aquelas definições de crônica que, via de regra, as orelhas de livros do gênero têm, porque já não precisamos disso. Salvo talvez pelo que se revelará já nas primeiras linhas, o hibridismo entre crônica e conto que habita Duas luas, uma guerra. Salientando apenas que aqui este casamento é fidelíssimo e decorrente de hábil pastoreio. Direto ao ponto: o encantamento governa este livro.

Desde seu O Tempo que Invento (2005, Editora Manuscritos), de mesmo calibre, a escritora, parece-me, pisa ainda mais firme nos terrenos da imaginação. Compaixão, humor e certo juízo filosófico nos comandam até a última linha, não obstante sua incrível infância mista na mulher corajosa de fino apuramento inventivo a nos recriar o dia. O que primeiro me suscita espanto é saber onde a menina Célia armazenava as impressões que ainda não “cabiam na criança” e tão bem se traduzem pela atual escritora, numa humanidade tão completa que, em cinescópico realismo, escorre entre linhas, para noutra hora ser gaiata fabulista em um mundo de escaravelhos e flores patricinhas ou mesmo indignando-se com anjos atrasados.

Depreendem-se também de suas histórias uma conversa doméstica sobre política internacional ou aventuras entre bambuais e luas encantadas. De vozes capturadas na cidade, o cotidiano absurdo naturalizado em seu contar. Os gêneros se confundem, penso em poetas que tenham culpa nisso. Crônica, conto, poesia. Na verdade uma narrativa que esbarra em nos-sas vidas o tempo todo, o reminiscente a atuar em nossas identidades, nossos lugares incomuns revelando-se nesta voz misturada no ar.

Como sua naturalidade em contar que o frango nutria esperança de escapar das tiras de pano que o prendiam. O plástico degradê colorindo a TV. Enfim, o espanto em cada recorte da vida. É muita coragem e cálculo seguro para derrubar este tronco, cuja medida é exata para a ponte do leitor. São por essas “matérias” que nos afetam os textos encontrados aqui, algo que só se reporta em rara língua artística como a de Célia, a atravessar o tempo, esparramando essa prosa mais que poesia,  que já me atiça a querer falar como a autora.
Adriano Menezes

Maria Célia Ferrarez Bouzada nasceu em Cachoeira Alegre - MG, em julho de 1963. Morou em Nanuque (MG) vários anos, mudando-se em 1993 para Belo Horizonte (MG), onde reside desde então. No período de 2001 a 2010 colaborou em uma coluna quinzenal, como cronista do jornal Hoje em Dia, de onde estes textos foram escolhidos e pinçados entre as centenas que produziu. Em 2005 publicou O Tempo que Invento, também um livro de crônicas, pela Editora Manuscritos, de Belo Horizonte.

Serviço:

Duas Luas, Uma Guerra
Maria Célia Ferrarez
Scortecci Editora
Contos
ISBN 978-85-366-2244-6
Formato 14 x 21 cm 
96 páginas
1ª edição - 2011

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