DE ORIUNDIS / Ercilia S. Turato

Há tempos eu venho projetando escrever sobre as mulheres de minha família, mas os dados eram mínimos, um quase nada. Apenas as informações colhidas de familiares já bastante idosos. As informações de vivência e experiências dessas valorosas mulheres, achava eu, seriam insuficientes para a composição de uma biografia. Mesmo assim, resolvi contar uma parte da história, cujo núcleo teve início com o casal Antonio Turato e Maria Avanci, italianos de Rovigo, Itália.

Mas os fatos que me levaram a escrever sobre os bisavós e seus descendentes foi a força incomensurável das mulheres nos embates da vida e, também, o fato de serem pessoas simples, como a maioria das imigrantes que aqui aportaram, num tempo de poucas oportunidades de trabalho e de um quase nada de conhecimento de mundo. Apenas o conhecimento profundo de miséria, religiosidade em excesso, muitos filhos e nenhum conforto por parte dos maridos, semianalfabetos e sem perspectiva de tempos melhores. O crescimento pessoal era um sonho irrealizável, nem lhes passava pela cabeça qualquer modificação do status quo. Assim era a vida das mulheres, há séculos, e assim seria a vida de suas filhas por mais tempo ainda. Mas alguma coisa viria a acontecer em meados do século IXX que modificaria essa mesmice secular no contexto familiar.

Algo viria a alavancar perspectivas de novos tempos nesse povo sofrido: a Imigração Italiana para as Américas. E assim aconteceu... Um contingente expressivo de italianos paupérrimos e semianalfabetos aqui aportou, de 1865 a 1930, e entre eles a minha família maravilhosa, em 1895. Eu amo minha família e sou grata por ter nascido entre essas mulheres corajosas e valorosas. Foram três gerações de mulheres fortes, lutadoras, cujas mudanças só ocorreram anos depois. Uma família como tantas outras que aqui vieram em busca de melhores dias. Minha homenagem a ELAS!

(...) o pão consumido em casa era produzido às quartas-feiras pelas tias, minha mãe e minha madrinha Maria. Era um pão redondo igual ao que consumimos hoje. Lembro-me de minha avó pegando o pão de dentro do guarda-comida e dizendo:... Dopo pranzo non vanno bene. Mas sempre dava uma fatia pra cada um. Vejo-a com uma faca comprida nas mãos cortando uma fatia fina na altura do peito, “pão de peito”, com avental amarrado às costas e olhando para cada um dos netos. Que delícia! Desses momentos, muitas estórias estão gravadas em minha memória.

Minha avó contava suas lembranças da cidade onde vivera com sua família, Rovigo, e cantava canções da Itália com sua voz já trêmula pela idade – hoje quando me recordo me emociono! As crianças mexiam umas com as outras, os meninos puxavam as tranças das meninas e as meninas beliscavam as outras. Era uma “baderna” bem administrada. As crianças paravam o alarido e brincadeiras, quando vovó Ercilia contava, repetidas vezes, os casos acontecidos no navio que os trouxera ao Brasil, e outras tantas do tempo que passou em Itatiba, Pito Aceso e Poços de Caldas e a sua odisseia em Campinas quando ficou viúva. E assim a noite ia passando até ouvirem a voz de comando: – Agora, pra cama, todo mundo... e batia palmas. Não se esqueçam de escovar os dentes... e vistam o pijama. Recomendavam os adultos.

Serviço:

De Oriundis:
história, Família, Amigos, Causos e Culinária
Ercilia S. Turato

Scortecci Editora
Família
ISBN 978-85-366-4176-8
Formato 14 x 21 cm 
280 páginas
1ª edição - 2015

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