GABRIELLE / Andreas Nora

São treze contos de estilo obsceno. Todos os contos são de ambientação urbana. O autor usa uma linguagem virulenta, cáustica; a linguagem da rua. O conto que dá titulo ao livro, "Gabrielle", é sobre uma jovem que em busca de aventuras, entra num mundo marginal de drogas e sexo, e tem um romance com um mergulhador; daí a coisa desanda num lirismo poético entre o amor e a crueza da realidade. Todo o livro é pontuado de sexo e ironia, cercado de num realismo-naturalismo cáustico e corrosivo.

“O meu corpo estava sobre o dela como se a protegê-la de tudo. Nossas faces estavam coladas e nossos corpos, agora mais relaxados, permaneciam estáticos, apenas minha mão direita acariciava os seus cabelos e a sua face esquerda; ela respirava suavemente enquanto eu me mantinha sobre ela me apoiando nos cotovelos – beijei a sua boca.”

“Fodíamos todos os dias... eu já não estudava nem ia mais ao posto de gasolina, estava ficando igual ao meu tio, estava ficando como eu queria... já tinha pegado o jeito de fodedor que o meu tio tinha. Comecei a detonar Pati Loira. Às vezes passávamos o dia todo fodendo, e ela me ensinou a beber, a fumar, e disse que um dia ia me ensinar a cheirar cocaína, que se eu cheirasse, eu ia ficar com muito mais tesão.”

Andreas Nora tem um estilo próprio, forte, grave, que facilmente incomoda. Eu mesma me incomodo quando o leio. Menos pelo estilo literário e mais por me sentir despida com a crueza com que expõe seus personagens, suas dores e sua busca desesperada por algum prazer nessa vida, qualquer que seja. Seus personagens já não querem, não podem ou não sabem vestir as máscaras sociais que lhes destinaram, e com isso acabam abdicando da sôfrega procura por algum sentido para a existência. Para eles, trata-se apenas de sobreviver até a próxima página. Para eles, viver encerra muitos riscos e estão dispostos a corrê-los. São personagens com vida, que se entregam, que experimentam, que amam, que não se importam com a morte; já se acostumaram com a presença dela em todos os cômodos. Para eles, a condição humana não permite tergiversações.

Em seu novo livro, Gabrielle, Andreas atinge um novo patamar literário, experimentando novos ambientes e novas tessituras sociais e psicológicas. Trata-se da melhor obra do autor. Os personagens não são mais os marginalizados das outras obras do mestre fluminense. Mas o fato de não serem marginalizados não significa que sejam ordinários. Nada é ordinário nesta obra. São, na verdade, tipos comuns, vivendo experiências que os tornam incomuns. O narrador do conto principal, por exemplo, é um jovem pescador que, ao conhecer Gabrielle, mantém com ela uma relação crua com muito sexo e uso de drogas. Nasce daí, contudo, uma outra relação, de proteção e responsabilidade, própria aos romances de cavalaria e estranha a esse submundo vil normalmente construído em nosso imaginário. É que Andreas vê além da sujeira, das secreções e das feridas purulentas do submundo que descreve. Sem dúvida, não é um autor para todos, mas deveria sê-lo.
Manuela G. R. King

Andreas Nora nasceu no Rio de Janeiro em 1953, estudou Arte e Literatura e mora em São Paulo desde 1990. É autor dos romances: Você precisa é de uma boa dose de vadiagem (2012), Raira (2013) e Cachorro do mato (2014), pela Editora Livre Expressão. É autor também do livro de contos: Bala no temporal e outros contos (2015), pela Editora All Print.
E-mail: andreasnora@gmail.com
Blog: andreasnora.blogspot.com.br
Instagram: @andreasnora_escritor

Serviço:

Gabrielle
Andreas Nora

Scortecci Editora
Contos
ISBN 978-85-366-4710-4
Formato 14 x 21 cm 
124 páginas
1ª edição - 2016

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