UM MULATO LETRADO / Dias de Cordel

Nosso mulato letrado não era tão bonito, nem elegante como a mulher Maravilha. Não tomava dos ricos para dar aos pobres como Robin Hood. Não era tão destemido quanto o Zorro nem tão valoroso quanto o Superman. Era simples como tudo que o rodeou no Salto da Divisa onde nasceu, no Jequitinhonha onde morou com sua tia Gertrudes, nos canaviais do interior de São Paulo aonde foi trabalhar como boia-fria, sempre com seu inseparável caderno de anotações, e na capital do estado onde pernoitou com Tilena, ao relento, na estação da Luz. Esse é Lirosval, mulato como muitos outros que existem por aí e sempre vai haver alguém lutando por melhores condições de vida.

Ele era forte com ‘máscara invisível’ de fraco. Possuía uma coragem de fazer inveja a qualquer Zorro. Esse país está cheio de mulatos vivendo nos sertões longínquos de nosso velho e lendário Nordeste ou em outros lugares do Brasil que é grande em todos os sentidos. Lirosval não era fraco. Apenas parecia. Era ‘advogado e psicólogo’ de fato, sem curso superior, sem diploma e sem procuração para defender os injustiçados, mas os defendia e orientava qualquer pessoa que necessitasse de sua ajuda. Antes de completar 17 anos Dona Lisete e Lisandro decidiram que ele deveria fazer companhia a tia Gertrudes no Jequitinhonha.

Ela era ‘viúva’ de marido vivo, igual a muitas outras mulheres cujos maridos foram para o interior de São Paulo trabalhar no corte da cana-de-açúcar como boias-frias, e se ‘esqueceram’ de voltar. Se amigaram com outras mulheres carentes do ‘diabo’ do homem e as de cá, ficaram esquecidas como ‘viúvas’ de maridos vivos. É evidente que estavam apenas separadas mas não tinham condições de viajar para São Paulo e encontrar seus maridos que estavam com ‘amnésia’ e tudo indica que premeditada. Ninguém vai consertar a humanidade e quem somos nós para corrigir tudo que existe de errado e que nem Jesus Cristo, o especial, conseguiu? Qualquer que seja o baiano/Tem tudo pra ser letrado/E sem nenhum desengano/Vai lutar, compenetrado/Para ser alguém na vida/Tendo ou não tendo guarida/Não vai fugir do ‘tablado’...

Pôr a bunda na bacia?/Lirosval se recusou
Mas outra opção não havia/E ele então acreditou
Na reza de uma comadre/Pra que não viesse o padre
Que a Tude ‘profetizou’.

Matar a morte

Em tudo existe uma essência
Que pode essencializar
E eu não vou pedir clemência
Pois detesto mendigar
Mas dependo de mais sorte
Pra poder matar a morte
Que vai querer me matar.

Sei que a morte é democrática
Só que não sabe escolher
Pode até ser pragmática
Porque é morte sem morrer
Por isso odeio essa chata
Que é covarde porque mata
Mulher, que ‘dá’ pra viver...

Se o capeta ainda está
Querendo mostrar serviço
Mate a morte, se chegar
No inferno com rebuliço,
Mas deixe em paz a mulher
Que agarra um bicho, de pé,
E o coloca em seu ‘feitiço’.

A morte é mais do que chata,
Porque é covarde e nos mata.

Criar, sem viver

Disse o Fernando Pessoa:
Viver não é necessário
Mas pra criar, numa boa,
Queremos vida e cenário
Sem vida alguém faz o quê?
O que um morto vai fazer
Já sendo ele tumulário?

Já vimos que a ‘inteligência’
Não se ‘alinhava’ ao real
Criar? Exige existência
Porque sem vida animal
Jamais vou ser criativo
Por isso, quero estar vivo
Criando, em potencial...

Não devo o contradizer
Porque não tenho argumento
Mas não posso, sem viver,
Construir qualquer invento
Se pudesse eu gostaria
De criar, pois provaria
Que um morto possui talento.

Filosofar? Isso eu nem tento...
Não penso em repensar o              
                           pensamento.

Doce de buriti

Sou um animal humano
Que frequenta o botequim
Como o meu pirão baiano
Com carne de bacorim
E um doce de buriti
Que é feito em meu Cariri
Desbanca qualquer pudim.

Mas não é só isso aí
Meu Cariri tem fartura
Ninguém resiste ao pequi
Sem falar da rapadura
Primeira na economia
Da região que irradia
Cordel, com desenvoltura.

Não me sinto um desterrado
Da região do Cordel
Inda vou ser convidado
Pra comer sarapatel
E uma buchada bem quente
Que agrada qualquer vivente
No meu Cariri, vergel.

Tudo que não tem aqui,
Se encontra em meu Cariri.

Serviço:

Um Mulato Letrado
Dias de Cordel

Scortecci Editora
Poesia
ISBN 978-85-366-5134-7
Formato 14 x 21 cm 
64 páginas
1ª edição - 2017

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