A VIDA TEM ALVORADAS / Lucília Junqueira de Almeida Prado

Já na montagem deste livro se vê que a autora nos apresenta um arco criador que vai da novela de drama pulsante ao conto ligeiro, quase elíptico. Vê-se, igualmente, que está aqui a mesma escritora de outros contos, já publicados. É a mesma e é surpreendentemente diferente. A mesma porque aqui está a dona de um estilo inconfundível na arte de ficcionar e na facilidade de jogar para o campo das falas toda a trama que aborda, o psicológico surgindo ao correr delas.

E é outra porque, sempre que sai do terreno geográfico, que demarca e documenta a região onde as personagens vivem e labutam, a sua cosmovisão se expande em emoções outras, quantas vezes a caminho do poético, o que acontece em vários destes contos. Com isso, expõe a sua versatilidade criadora. A facilidade da autora de contar é tanta que alcança, meritoriamente e quando quer, o que tem feito com grande sucesso: a literatura juvenil.

Todos os contos aqui reunidos são de primeira categoria. Uns de unção mais lírica, outros ricamente humanos e outros, ainda, palmilhando emoções mais fortes nos dramas familiares. Todos, porém – e é tônica do estilo da autora – sem se afastarem da simplicidade narrativa e dos meios-tons, mas pulsantemente vívidos. É que esta escritora viveu, sentiu e captou para o seu talento personalíssimo e sensível, as sutilezas e contradições do espírito humano que não vêm ao vivo, em emanências para as alegrias ou para as tristezas.

Como citar os melhores trabalhos aqui reunidos? A autora nunca escreveu textos curtos, publicados ou não, de expressão menor. Todos possuem real mérito criador. Citamos, todavia, alguns contos do livro, como simples eleição pessoal, que outros poderão facilmente ser lembrados. Cito "A Vida tem Alvoradas", ritmo de novela em quatro capítulos, pelo pungente drama familiar, centrado no pantanal matogrossonse, tão fotográfico e quase palpável, seu desdobramento para o campo de batalha na Segunda Grande Guerra, e o retorno à comoção do lar; "Castelo de Cartas", história de amigas em viagem de passeio de navio, a vida vivida de cada uma delas, de final comovente e humaníssimo; e "O Rei dos Pássaros", pelo final de latente emoção e beleza. Seria fácil citar e citar, e acabaríamos por pontuar o colar inteiro dos textos aqui reunidos.

Note-se um detalhe, essencial e notável, nas suas criações: a variação de detalhes de vidas, sejam citadinas ou interioranas, do passado ou do presente, livres de dramas explosivos, pelos enfoques muito mais importantes: o que chamamos de pequenos-grandes dramas que ocorrem nos ambientes familiares.

Escritora que extrai tudo do nada ou do quase nada, das classes mais baixas às de patamares mais altos. Como o seu descritivo é fotográfico e impressionista – embora quase sempre elíptico – e se treliça bem com o narrativo, nunca a autora interfere no seu processo criador. Deixa que tudo corra como na vida real, seja para as alegrias ou para as tristezas. É o que se chama de arte ficcional. Lucília Junqueira de Almeida Prado nela navega com aquela vibração sensível que seduz qualquer bom leitor. Uma sugestão apenas: leiam o livro.

São Paulo, 06/08/2008
Caio Porfírio Carneiro

Lucília Junqueira de Almeida Prado nasceu em São Paulo. Passou todo sua infância numa fazenda perto da cidade de Conquista, no Triângulo Mineiro. Voltou a São Paulo para fazer o ginásio no Colégio das Cônegas de Santo Agostinho (mais conhecido como “Dês Oiseaux”). Terminando este curso, fez Secretariado, Aliança Francesa, Cultura Inglesa e alguns cursos de literatura. Sempre gostou muito de português e do professor da matéria José Adelino D' Azevedo, guarda as melhores recordações e a alegria de ter sido ele o primeiro a vaticinar que ela seria escritora. Chamava-a para ler suas composições e narrações, de frente para a classe, sobre o estrado onde ficava sua escrivaninha. Quando terminava, ele que era português nato, tendo um metro e meio de altura, passava o braço pelas suas costas e dizia: “A m'inina vai ser escritora! A m'inina vai ser escritora!” Aos 19 anos casou-se com um fazendeiro e voltou a morar numa fazenda entre as cidades de Orlândia e Morro Agudo. Assim realizou um sonho: voltar a morar no interior com tempo para muito escrever. Tem cinco filhos, onze netos e, por enquanto quatro bisnetos. Este é seu segundo livro de contos para adultos, pois que o primeiro chama-se “Cheiro de Terra”. Até eles, escreveu 65 livros para a infância e juventude. Com seu segundo livro “Uma rua como aquela” ganhou o Jabuti 1971. Tem mais 8 prêmios sendo o mais importante o do “Pen Clube Internacional” pelo conjunto de suas obras. Lucília foi presidente da “Academia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil” nos anos de 1980 e 1981. Em 1980 ganhou o diploma “Personalidade do Ano”.

Serviço:

A Vida tem Alvoradas
Lucília Junqueira de Almeida Prado
Scortecci Editora
Literatura brasileira
ISBN 978-85-366-1302-4
Formato 16 x 23 cm - 312 páginas
1ª edição - 2008

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