NA DURAÇÃO DA MATÉRIA / Izacyl Guimarães Ferreira

Transcendendo o Tempo

Você abre este livro de Izacyl Guimarães Ferreira e o primeiro poema se intitula “Tempo”. Começa a se movimentar o leque poético a partir de uma imagem central. Este poeta enraizado no “tempo”, no segundo poema chamado “Passado” desdobra um segmento esclarecedor de nossa intrincada temporalidade: “o que ficou atrás mas nos alcança/ e de repente devora o presente”.

O terceiro poema, já no título, nos diz mais claramente a direção que estamos seguindo: do “tempo” e  do “passado”, agora se aporta de vez na “Memória”. É mais um dado, mais uma peça na estrutura poética e existencial que se está articulando. A memória é o espaço onde se salva o tempo de ontem e de hoje.

O quarto poema leva o título de “ Corpo”. E aí temos uma série complementar de significados: o “corpo” preenche de “tempo”, de “passado”, de “memória” o espaço físico “ontem”, subjetivamente temporaliza sua existência de ontem e hoje. Já o quinto poema, apropriadamente, vai se chamar “Palavra”. E o poeta que está celebrando a sua “lira dos oitent’anos” assume o peso da poesia pronto para “dizê-la em solidão/ contra a boca da noite”.

Estamos diante de um autor não apenas consequente, mas que dialoga consigo mesmo e com a tradição poética. Se escrever é reinventar-se, esse poeta, como Manuel Bandeira, que foi seu mestre também na Faculdade de Letras da UFRJ, reorganizando a lembrança de que escreveu, pode fazer uma “auto-antologia” como no poema “Saudade”.

Diria que este é um livro de despedida, não fossem os poemas dos poetas sempre um aceno diante da impossível realidade. Poderia ser lido como uma pungente “cerimônia de adeus” de alguém que lucidamente, aos oitent’anos se contempla do alto de si mesmo e vai buscar o menino que foi e permanece:

“Menino, como ensinar a você/ o que eu sei mais não é muito/ se com você aprendo tanto mais?”.

O poeta habita o tempo, em que procurando a essência de si mesmo, não se desperdiça mais nada “Porque um homem se faz sem desperdício/ do menino que ele foi”.
  
Neste balanço do homem maduro diante do vivido, surge a sensação de que “nunca estivemos prontos para a formatura”, para a “aventura”e a “desventura”. Enfim, “Nunca estivemos prontos para nada”, porque afinal, nos atravessa uma patética conclusão: “nunca estaremos prontos para a sepultura” .

Por isto, “vestido de silêncio como os gatos” o adulto-menino transita sua poesia, “atravessado pelas máquinas/ sem conhecer seus mecanismos”. Vai abrindo o cofre do tempo e da memória e aprende a “bater a porta sem pensar no alarme”. 

Enquanto na “durée” bergsoniana de sua poesia vai experimentando o que o titulo do livro denuncia – a “duração da matéria” – escolhe duas estratégias para se alongar e contemplar o mundo. A primeira é a própria literatura.

Então, há uma série de poemas onde dialoga com Jorge Guillén, Hölderlin, Rilke, Gerardo Diego, Ronsard, Pedro Salinas, Murilo Mendes, Alberto da Costa e Silva, Rafael Alberti João Cabral, Cecília Meireles, Lêdo Ivo, Ivan Junqueira, Bandeira e até um certo Sant’Anna.

Mas a poesia de Izacyl tem um fascínio especial pelos museus e pelas artes plásticas. Da moldura dos poemas saltam Pancetti, Hokusai, Rodin, Cèzanne, Rubens, Modigliani, Degas, Klimt, Picasso, Courbert, Vermeer, Matisse, Portinari, Goya e outros.

Este é um poeta que alargou sua visão ao sair pelo mundo colhendo vida e história além das fronteiras de si mesmo.

Os poetas têm uma maneira muito particular de escrever suas memórias. Elas estão substancialmente em seus próprios poemas. E Izacyl consegue, graças aos

sortilégios da poesia recuperar certos espaços sociais e históricos que não são apenas dele, mas de toda uma geração, ao tempo em que  nas casas, no lugar da ruidosa televisão havia a “sala de visitas” como ele de uma maneira precisa recupera neste poema:

Sala de Visitas

Havia o que chamavam sala de visitas.
De peroba entalhada era a mobília,
de rendas finas as cortinas.
Não se guardava nela assuntos de família,
embora fosse um cômodo restrito
em seu noturno meio-dia.

Porcelanas de época, fotografias sóbrias,
às vezes valsas, choros, melodias nobres
no piano de ébano. Contudo,
era uma sala retraída
em seus silêncios de veludo.
Pareceria feita para despedidas.

Mas não se viu qualquer velório.
Aos poucos transformou-se em escritório,
meu santuário de leituras consentidas.
O que chamavam sala de visitas
abriu-se para páginas escritas,
minhas portas de entradas e saídas.

Poeta do anti ruído, soando como música de câmera, elegante, conhecedor sereno do fazer poético, sabendo tranquilamente onde cortar os versos, onde tirar efeito com uma imagem inesperada, Izacyl é também um surpreendente sonetista como o demonstra em “Retrato de Menino” e “Pessoal”, entre outros.

O último poema do livro chama-se “Por enquanto”. Poderia num amplo estudo remeter para os poemas barrocos que diziam que tudo sempre termina em osso, em pó, em cinza, em nada. Mas Izacyl é mais sutil, menos patético. De alguma maneira, no poema “Por enquanto” ele sintetiza e fecha o leque de temas em que se abriu o poeta nessas páginas em que, pela poesia, tentou transcender o próprio tempo:

“que tudo é só um momento
do que parece ser:
eterno sem ser tanto,
pois tudo é por enquanto.”

Affonso Romano de Sant’Anna

Izacyl Guimarães Ferreira (1930) é autor de 15 livros de poesia, alguns deles distinguidos em premiações. Exemplo, a obra de estréia, Os endereços, que obteve o Prêmio Hipocampo para autores inéditos, encerrando, com sua publicação em 1953, as celebradas edições de luxo impressas manualmente para 100 bibliófilos, por Geir Campos e Thiago de Mello. Outro exemplo, a menção honrosa do “Casa de las Américas”, de Cuba, em 1999, para Ocupação dos sentidos. Os 7 primeiros livros de Izacyl foram reunidos em 1980 sob o título Os fatos fictícios, pela editora LR, de Ricardo Ramos e Julieta de Godoy Ladeira. Em 1987 publicou Aula mínima, numa edição fora de comércio.

Outros livros do autor:

1) Os endereços, 1953 Prêmio Hipocampo, da editora de Geir Campos e Thiago de Melo Edição para assinantes.

2) A curto prazo, 1971, Martins Menção honrosa do prêmio Governador do Estado de São Paulo.

3) Iniciação, 1972 Edição fora de comércio.

4) Os Fatos Fictícios, 1980, LR Editores Reunião dos anteriores e 4 inéditos.

5) Aula mínima, 1987 Edição fora de comércio.

6) Memória da guerra, 1991 e 2002.

7) Entre os meus semelhantes, 1994.

8) Passar a voz, 1996.

9) Águas emendadas, 1998.

10) Ocupação dos sentidos, 2001.

11) Uma cidade, 2003.

12) Discurso urbano, 2007 Prêmio ABL de poesia, da Academia Brasileira de Letras.

13) A conversação, 2008.

14) Antologia poética, 2009, Topbooks.

Scortecci editou os títulos de 6 a 13.

SERVIÇO:

Na Duração da Matéria
Izacyl  Guimarães Ferreira

Scortecci Editora
Poesia
ISBN 978-85-366-1838-8
Formato 14 x 21 cm 
136 páginas
1ª edição - 2010

Mais informações:

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