AS ILHAS / Izacyl Guimarães Ferreira

Paul Valéy observava que “escrevia a metade de um poema e a outra metade era o leitor que a escrevia”. Veio-me a propósito do novo livro de Izacyl Guimarães Ferreira, poeta, crítico e ex adido cultural de embaixadas brasileiras em países hispânicos, com o nome sugestivo e provocador de “As Ilhas”.

E que “ilhas” são essas? As da condição humana, as do buliçoso tear dos vocábulos, aquelas que anunciam as viagens do ser histórico atrás de antigas plagas de alma, as mesmas cotejadas por Homero, Camões, Jorge de Lima, Pessoa, Kavafis, Gerardo Mello Mourão (tentando inventar o mar), ou Drummond , com sua pedra no meio do poema, quando “a maré inventa o tempo” e o tempo inventa a maré. E tudo nas sinuosas “águas das palavras”, com seu onírico mistério.

Assim, o poeta Izacyl escreveu a metade do poema e a outra se grava e desenvolve na imaginação da memória de cada leitor. Pois as “ilhas” se inscrevem no inconsciente coletivo, como pedra jogada no marulhar da vaga. E as aproxima do desenho das estrelas, como metáfora entre as constelações da escrita. É um texto de textos, que se sonham e se intrometem. Nascido de uma origem maior e inocente. Por brotarem dos olhos do menino. Talvez ao ser a infância toda uma navegação. Sem Cabo das Tormentas.

As ilhas siderais e as da geografia terrestre, as ilhas dos sonhos e as do idioma. Impondo-se como imperiosa consciência, eminentemente mágica. Mas algo singulariza esta poesia, além da concisão rigorosa, além da densidade de um pensamento que se espraia, desde o firmamento às linhas do Planeta, entre Canárias, Nipônicas e as ínsulas do rio São Lourenço.

Enfatizo. O que chama atenção no entreabrir de nomes, é a criação do espaço em que o poeta erige os Cantos. Tanto carece ele de espaço, tanto busca território, onde alargar-se, tanto traça sesmarias e dimensões, como tende a um real intenso, captado pelo rio de voluntariosa razão e pela carga de ventos luminosos, os achados verbais que se entrecruzam na voracidade dos signos.

Música de câmara? Sonatas e partitas de Bach, ao violoncelo das ondas. Esta poesia caminha ao universal, na medida em que trabalha o concreto, o tangível, o mais corpóreo. Sendo vetorial o poema Gulliver: Entre os pequenos e os grandes, yahooo,/ que é o médio nome humano, sofre e ri/ conosco ali na estrita Lilliput.

Isso forja, com o grito dos arcanos ou a festa nos trópicos, a memória riscada no chão e o valor nenhum das transitivas glórias. É verdade que o texto ora assume o eito de versos octossílabos, ora decassílabos, cada um dos quatro Cantos do poema composto num metro distinto, como rebojo de velas no borbulhar oceânico, retecendo na espuma a cadência sonora dos versos.

Izacyl é um poeta que se mune do mítico para transfigurar o real e do real, para se incorporar à espécie e à lembrança. Nada é gratuito, não querendo jamais perturbar o acaso, ao edificar uma criação que se gesta em certa geometria, (consangüíneo de João Cabral e Jorge Guillén), permeando-se da circularidade, esta redondeza do espanto.

Sim, a busca de concisão é o hausto explosivo de verdade e a verdade, o feito do infortúnio ou ventura doshomens. Talvez até por este sentimento do mundo que pervade as “ilhas” , ou estas ilhas que se enchem de invenção da palavra, o respiro do mar, por fora e dentro, ou com o abissal devanear da matéria padecida.

Igual no que no corpo é alma,/ vária no que na alma é graça, ou a cada estação, a natureza dessas ilhas sabe sempre refazer-se. Como o mar eternamente recomeçado do “Cemitério Marinho”, de Valéry. Acentuando-se dois elementos na poética de Izacyl: o cativar dos vocábulos, obstinadamente presos à inefável ou delirante lucidez. E a melodia rítmica conduzida pelo ser lírico que na fluidez por vezes toca a raiz do épico e outras, a do órfico.

Tendo a precisão de um lugar exato para as metamorfoses, utiliza símbolos com sabor de silêncio e silêncio que preenche os possíveis vazios ou desamparos das “ilhas”. Não sei ao certo se elas “são felizes”, consoante a epígrafe do espanhol Pedro Salinas. Não importa. Todas levam a um “ludus”, ou combinar de metáforas que se deleitam no fuso das Parcas e na fusão ritual dos signos.

O princípio e o fim do poema é o círculo móvel, deambulatório da paixão e do juízo. Com um jogar que pode ser infinito como o destino, labiríntico, fraterno, vertiginoso. Um portulano de coisas novas na movediça solidão do futuro. Sem esquecer a aventura da viagem rumo à Ítaca, manjedoura da linguagem. Ou Penélope, a industriosa imaginação da fábula.
Carlos Nejar

Outras obras do autor:
Os Endereços, 1953, Hipocampo
A Curto Prazo, 1971, Martins
Iniciação, 1972, edição do autor
Os Fatos Fictícios, LR Editores, 1980, reúne os 3 primeiros livros publicados e 4 inéditos escritos durante os anos 70:
Escalas
Declaração de Bens
Retratos Falados
Em Outras Palavras

Aula Mínima, 1987, Norte Editora
Memória da Guerra, 1991 e 2002
Entre os Meus Semelhantes, 1994
Passar a Voz, 1996
Águas Emendadas, 1998
Ocupação dos Sentidos, 2001
Uma Cidade, 2003
Discurso Urbano, 2007
A Conversação, 2008
Antologia Poética, 2009, Topbooks
Na Duração da Matéria, 2010

Os livros sem indicação de editor tem o selo da Scortecci Editora.

Serviço:

As Ilhas
Izacyl Guimarães Ferreira
Scortecci Editora
Poesia
ISBN 978-85-366-2368-9
Formato 14 x 21 cm 
108 páginas
1ª edição - 2011

Mais informações:

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