DESEJO DE RUPTURA / Raphael Fernandes Alvarenga

Compostos independentemente, os ensaios de Desejo de ruptura têm em comum certa configuração de problemas, que inclui questões e impasses ligados à constituição do sujeito na modernidade. Assim, o ensaio que abre o livro, sobre Hamlet, discerne no texto shakespeariano uma afinidade com a experiência especulativa cartesiana e sublinha a dimensão político-emancipatória do sujeito que da ruína de todo um mundo e da insatisfação com a ordem vigente se constitui fundado em si mesmo, vale dizer, suporta a negação de sua identidade imediata, tornando-se capaz de formar juízo autônomo, de formular e sustentar desejos e projetos próprios.

O ensaio seguinte trata da lírica de combate concebida por Baudelaire em fidelidade à memória dos acontecimentos de 1848 – das promessas de liberdade ao sangrento esmagamento de sua possibilidade – e como contraponto ao clima de esquecimento e capitulação geral reinante na Paris do Segundo Império. Em sua poesia vem à tona a noção de um sujeito que, sem se deixar embasbacar, aceita se perder, mergulhar fundo nos abismos da miséria moderna, mas para retornar a si fortalecido pela confrontação com o negativo. O terceiro ensaio propõe uma leitura renovada de Heart of Darkness, novela de Joseph Conrad que narra a descida ao mundo infernal da total dominação das coisas sobre os homens, no qual os sonhos se revertem em loucura e a razão, tiranizada pelo capital, regride ao mito, como que solapando a capacidade de resistência aos apelos de potências irracionais violentas.

Comentário crítico de Berlin Alexanderplatz, romance de Alfred Döblin, o quarto ensaio procura mostrar que, para além da participação nas trevas, haveria na história do proletário marginal Franz Biberkopf, como ponto de fuga, algo do antigo projeto esclarecido que não dissocia consciência do desejo e desejo da consciência, justamente o que naufraga na sociedade totalmente colonizada pela mercadoria. A compreensão de que a emancipação humana depende do reconhecimento e da organização pelos indivíduos de suas próprias forças como forças sociais ganha formulação original em Brecht, cuja obra é revisitada no ensaio final. O pensamento dialético, o didatismo e o distanciamento crítico, hoje tão depreciados, aparecem como armas indispensáveis na luta contra o irracionalismo totalitário, de cuja experiência ainda não estamos livres.

Raphael F. Alvarenga é doutor em filosofia pela Universidade de Louvain (2008). Desde 2009 é um dos editores da revista Sinal de Menos.

Apesar de tratarem de obras pertencentes a épocas, contextos sociais e formações literárias diferentes, é recorrente nos ensaios reunidos neste livro a referência à noção moderna de sujeito, mais precisamente a que diz respeito a uma inadequação irredutível. Sua experiência, de uma verdade ancorada em algo que se subtrai à existência posta, contrasta criticamente com a do exasperado narcisismo predominante nas sociedades contemporâneas. Nestas, com efeito, a submissão ao que Marx chamou de “objetividade fantasmagórica” – quer dizer, a absorção ritual de toda a vida subjetiva pelas condições alienadas do trabalho social, a redução da experiência inteira à realidade dos fatos do mundo existente – é tão cabal que bloqueia a possibilidade mesma de se imaginar práticas sociais e políticas capazes de questionar seus próprios pressupostos.

Nessas condições, o desejo de ruptura com o mundo caduco, desejo formalizado em obras importantes da grande literatura moderna, aparece como fator significativo na luta não somente contra as forças de reprodução social e o imobilismo político de modo geral, mas igualmente contra a cultura da conformidade e do contentamento, característica da época atual.

Serviço:

Desejo de Ruptura
Raphael Fernandes Alvarenga
Scortecci Editora
Crítica Literária
ISBN 978-85-366-2607-9
Formato 14 x 21 cm 
268 páginas
1ª edição - 2012

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