OS SONS DO DIVINO E O ESPÍRITO SANTO DO SILÊNCIO / Alexandre Gennari

“Entrou no bar e pediu uma cachaça que tomou num trago. Por que raio a menina dera pra perguntar da mãe?
‘É o Diabo!’ – Fez o sinal da cruz lembrando-se que era dia santo e pediu outra cana – ‘Da Luizense, façavor.’
O homem serviu e ele emborcou. Pra que falar... Falar de gente que morreu? Se morreu, morreu... Lembrou-se da cara de Doriza. Bonita a danada, como a filha Pituinha que agora era uma moça e queria porque queria saber da mãe.

Maciel nunca fora de inventar histórias, só mentira porque foi preciso. Nem sabia mais o que era mentira, o que era verdade. Bebeu outra e quando botou o pé na calçada sentiu o sol ferver na cachola. Ventou um sopro imaginário que o empurrou dois passos pra esquerda. Aprumou-se e pensou ver Doriza no rosto de uma mulher que passava. Balançou a cabeça e o som do zabumba cortou sua lembrança. Os grupos de Congada e Moçambique chegavam à praça, com suas danças, suas batidas fortes e seus instrumentos. Enquanto isso, uma procissão imersa em quietude saiu da matriz e seguiu rumo à igreja do alto. O som da batida do Moçambique foi entrando nele como uma droga. Sentiu uma zonzeira, a visão esfumaçou... Só o som era cada vez mais nítido, mais puro, mais forte...”

É fácil ler Alexandre Gennari. Com um estilo direto e objetivo, ele vai sempre ao ponto nodal que pretende expressar. Sua ficção soa como fatia da realidade. Essa é a raiz das relações do autor com seu modo de escrever e construir seus textos. Ao leitor não escapará a ideia de que estes contos e crônicas, apesar da variedade de temas, mantêm uma impressionante unidade interior. Os textos se manifestam misturando ficção e realidade com a intenção de recuperar o tempo passado, para que se vivifiquem o presente e o futuro. A partir do final do livro, com os microcontos Minhas Corruíras Nanicas, é possível captar a essência filosófica da obra e a síntese dos temas dos contos anteriores: o autor abandona os mistérios que não pode entender, o heroísmo existencial; e volta-se para a busca de energias objetivas, passando a sentir a vibração da vida nas experiências humanas, sem falseamentos idealizantes. Para Alexandre Gennari é fundamental compreender as motivações de seus personagens para a vida. Compreender o estar no mundo é o que ele busca com sua literatura. Temas e estilo se casam muito bem em suas histórias. A elaboração e a construção de seus textos demonstram muita consciência do que pretende e faz. Ao leitor torna-se difícil escapar da magia de suas narrativas, que seduzem pela naturalidade e pelo cunho de verdade que transmitem.
Benedicto Luz e Silva - Escritor e editor

Alexandre Gennari nasceu em São Paulo e hoje vive entre a capital e São Luiz do Paraitinga. Estudou Jornalismo na PUC e viajou por 15 estados brasileiros nos anos 1980, trabalhando como coordenador de eventos. Foi cartorário, vitrinista, marketeiro, empresário, muambeiro e vendedor. Hoje é roteirista, webwriter e escritor. Desde 2001, edita o blog Webwritersbrasil, sobre comunicação escrita multimídia. Escreveu os roteiros dos filmes Os sons do Divino e o Espírito Santo do Silêncio e Ouço Passos no Escuro.

Serviço:

Os Sons do Divino e o Espírito Santo do Silêncio
Alexandre Gennari
Scortecci Editora
Contos
ISBN 978-85-366-2711-3
Formato 14 x 21 cm
156 páginas
1ª edição - 2012

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