RUA TABOÃO / Nege Além

Em linguagem literária bem apurada, que é do seu como dizer personalíssimo, Nege Além põe de pé uma personagem em poucas linhas.  O livro presente, mostragem nova de textos anteriormente publicados, espelha como livro novo que é, dentro do seu universo criador de Arte Escrita. Vale-se ele de uma arma poderosa, dom dos bons escritores: uma dialogação sempre objetiva e oportuna.

E de uma magia intuitiva que palpita em qualquer leitor: aproxima-se de uma simples narrativa, mas não fica nisto; aproxima-se da novela, do cinema, do teatro... E não fica neles... Tudo isto porque o seu pulso e impulso ficcionais trazem sempre em relevo aquela emoção vivida que comove e palpita, ao correr da leitura e na subjacência. Histórias de meninos da baixa classe média, suas maquinações e aflições. Como então selecionar os melhores trabalhos aqui reunidos? Será sempre uma precária eleição pessoal, porque todas as histórias estão no mesmo nível de valor.

Para citar apenas um trabalho, Rua Taboão, que inicia o livro e lhe dá título, vê-se bem que ele alcança a medida emocional e telúrica de todos os outros. O autor, igualmente, sabe dar o ponto final em todas as histórias, deixando, para além do ponto final, saudade das personagens, que se integram na   alma do leitor. E ele, contista, apenas expõe, não forçando nada. Mas, nas entrelinhas, nos diálogos, nos descritivos elípticos, nos narrativos vivamente objetivos, recria uma realidade pulsantemente impressionista, que emociona, encanta  e seduz. Arrematamos, valendo-nos da afirmação da escritora Rachel de Queiroz para um bom livro: “É ler e tirar a prova.” Como este.
São Paulo, 24/06/2011
Caio Porfírio Carneiro - Escritor e crítico literário - Secretário Administrativo da União Brasileira de Escritores

A TRAJETÓRIA VITORIOSA DE NEGE ALÉM
Os escritores memorialistas, via de regra, sofrem restrições dos críticos, mas agradam os leitores. Enquanto aqueles enfatizam a suposta pobreza ou falta de imaginação no aproveitamento de fatos vividos, na obra de ficção, estes últimos encontram sempre meios e modos de se encaixarem na pele de alguns personagens, rememorando cenas de suas próprias vidas que lhes parecem assemelhadas ao texto ficcional. Escritores hoje consagrados, a exemplo de Lima Barreto e Godofredo Rangel, foram vítimas dessa oposição crítica, circunstância que contribuiu para dificultar a divulgação e a serena análise de seus trabalhos. Na verdade, porém, essa colocação dos analistas, como toda posição irredutível, não  faz sentido.

Não importa de que ingredientes se valeu o autor para chegar ao resultado, ou, por outras palavras, onde foi buscar “inspiração”, desde que o resultado obtido atinja as dimensões artísticas almejadas. E, se a memória humana constitui o elo de ligação entre o passado e o presente de cada homem, não se atina porque não devam, ou não possam, por ocorrências vividas transformaram-se em contos e romances. Não se pode conceber que as lembraças de cada um, que se constituem na experiência acumulada, tenham que ser postas de lado para a criação literária de cenas, fatos e pessoas inteiramente imaginários e que muitas vezes, por isso mesmo, perdem a verossimilhança. Parece inegável que esse tipo de literatura exige talento, eis que transformar pequeninos acontecimentos do cotidiano em estórias vivas e interessantes, não é tarefa fácil, aumentando a dificuldade na medida em que mais simples e rotineiros são esses fatos. Realmente, só a grande habilidade na estruturação do conto ou do romance e no manejo da frase, pode dar a narrações singelas a necessária densidade psicológica que as eleve às dimensões da arte capaz de prender o leitor.

Nesse particular, o escritor Nege Além  é um vitorioso. Com efeito, o seu livro de contos, Rua Taboão, constitui-se de um conjunto de histórias baseadas em fatos simples que o seu talento soube transformar em contos atraentes, movimentados, cheios de observações e ensinamentos para a vida e que, sem dúvida, agradaram aos seus leitores, fosse a idade ou a condição. Fatos mais ou menos comuns a toda uma geração ganhavam no volume o contorno de excelentes contos. Assim, a luta desesperada para não perder o capítulo do “seriado” no cinema da cidadezinha, as privações e os sacrifícios para economizar os cinco mil-réis, o sonho irrealizado de obter uma bola de “capotão”, o doloroso contato com a miséria da família. Eis alguns dos temas aproveitados. A guerra de rua, ferrenhamente travada entre os grupos antagônicos, com seus planos e retiradas (sem faltar a figura do “traidor”), era um dos excelentes momentos do livro. Um livro que, no conjunto, constituiu-se num dos bons lançamentos de 1977.
Enéas Athanázio

Serviço:

Rua Taboão
Nege Além
Scortecci Editora
Contos
ISBN 978-85-366-2722-9
Formato 14 x 21 cm 
152 páginas
2ª edição - 2012

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