CRÔNICAS DO COTIDIANO E OUTRAS MAIS / Andressa Barichello

“E de tantos ensaios, um novo ensaio. E ao darmos as mãos uma vez mais nesse tempo de não mais, a boneca, sem vida, escapa sutil e pela lei da gravidade chega ao chão. Nenhuma gravidade que não a lei. E a lei primeira entre nós. Minha boneca russa... Tantos anos a resistir no recostar da fria parede e a um leve toque tornar-se assim, um caco varrido, pó. Terá sido tanto olhar para o dentro dos seus olhos de superfície?”

“Este livro não é sobre mim, mas a partir de mim.” A observação certeira de Helder Macedo, na obra Partes de África (Rio de Janeiro, Record, 1999), trazida para o meu repertório pela amiga e escritora Izabela Loures, sintetiza de algum modo o ânimo que percorre as páginas deste livro, escrito quase todo durante o período em que vivi em Lisboa. A inserção em um ambiente distante e desconhecido possibilitou um despertar da minha atenção a tudo quanto fosse capaz de resvalar naquilo que é comum ao humano, de modo a suprir a então constante busca pelo familiar em terras onde a própria língua portuguesa pode, por vezes, se revelar uma estrangeira.

A propósito, a particular diferença existente entre brasileiros e portugueses no uso e relação com um mesmo idioma elevou a minha admiração ao potencial da palavra enquanto possível ferramenta para a construção de um lugar no mundo – seja ele exterior ou interior. Portanto, não isenta de algum desassossego, minha motivação ao investir nas letras foi, de fato, a busca por um além-palavra, jogando, inclusive, com o risco do aquém.

E qual seria o melhor tempo e espaço para oferecer a um autor essência e movimento para suas linhas, senão o cotidiano – palco onde a vida se [des]enrola? No Livro do Desassossego, de autoria do ortônimo Bernardo Soares, o poeta Fernando Pessoa afirma: “Não sei quantos terão contemplado, com o olhar que merece, uma rua deserta com gente nela.

Já este modo de dizer parece querer dizer qualquer outra coisa, e efetivamente a quer dizer. Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta” (São Paulo, Companhia das Letras, 2013). As demandas do dia a dia, sempre urgentes e constantes, fazem com que muitas vezes deixemos de entrever o que há para além dos meros fatos.

E se em Portugal “fatos” são “roupas”, fica válida a metáfora de que os fatos talvez sejam mera cobertura, aparência e uma metáfora em si, capaz de apresentar o sujeito que é amiúde exposto. Para mim, a “rua” de Bernardo Soares é a “vida”, e escrevo no esforço de tentar contemplá-la com o olhar que merece para que não seja, afinal, deserta.

Portanto, meu desejo com relação às páginas que seguem – situadas no tempo do cotidiano e no espaço-risco da rotina – é o de que a fina camada de realidade que recobre as linhas do meu trabalho possa em algum momento convocar o leitor a habitar e marcar cada página com outras palavras e histórias, compartilhando a seu modo do mesmo substrato humano que um dia serviu de motor para a redação de cada um dos registros que compõe esta coletânea. Que seja possível, enfim, um [des]encontro entre autora e leitor, em qualquer das praças, cafés, imagens, gestos, risos, angústias, epifanias e silêncios guar-dados com afeto neste que é o meu primeiro livro publicado.

Serviço:

Crônicas do Cotidiano e Outras Mais
Andressa Barichello

Scortecci Editora
Crônicas
ISBN 978-85-366-3655-9
Formato 14 x 21 cm 
92 páginas
1ª edição - 2014

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