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SERTÃO DO REINO / Marcos Quinan


Quando viu, veloz e em saltos no meio fechado do mato, pensou: guariba. Não era. Pensou pintura sem preceito, desar. Não era. Caça fora de hora no espaçado do dia, parecia. Acompanhou pisando silêncios até o destro gesto. No outro, metade susto, metade medo. Caça nada, parecia resto de fogo sem fumego, avaliou quanta carne, armou a borduna de tucum, recém-tirada. Queria o assado vivo, pensou; esse prostrou manso facilitando o golpe ou adivinhando intenção de ser levado. Olhou no detalhe cuidando distância; viu os molambos que o outro vestia; a pele porejando, escura e brilhante. Não resistiu, baixou o braço e o tocou com a ponta da arma falando:

– Iên... iên... iên...

Trocar palavras com o jeito manso de Marcos Quinan é sempre aparar pelos olhos os sertões de uma alma sensível, zelosa, sedutora e atenta ao “em torno” que, não por acaso, lhe serve de cinzel para esculpir canções e escritos. Uma rápida passada de vista nas frases que ele faz germinar revela isso e, mais que isso, que essa rápida passada de vista é impossível, porque a forma como ele arruma as palavras atrai, captura, e o texto se dá irresistível. Afinal, quem não se dobra a um grande contador de histórias?

Marcos Quinan, que já nos havia encantado com o Sertão do São Marcos, com o Sertão D’Água e seus outros trabalhos, agora novamente nos vem deliciar com a reedição do Sertão do Reino, feixe de histórias de gente simples, sobrepostas em um eixo onde se articulam as tramas do sangrento, vitorioso e, posteriormente, derrotado movimento popular hoje chamado de Cabanagem, que teve seu auge na então Província do Grão-Pará, entre 1835 e 1840, no Brasil do regente Diogo Antônio Feijó, contabilizando cerca de 30 mil mortos, para uma população amazônica que girava em torno dos 150 mil habitantes. Sem perder de vista os fatos narrados pela história oficial, Sertão do Reino direciona os refletores para os índios (destribalizados ou não), negros forros, escravos e mestiços que protagonizaram os acontecimentos, na maioria das vezes sem se darem conta das razões de sua luta, focalizando-os no seu dia a dia, nas paisagens peculiares da vida de cada um. Marcos Quinan reinventa uma história dos vencidos, cada capítulo quase que funcionando como um elemento autônomo, não fosse o fato de, na sequência em que estão dispostos, seguirem a cronologia da revolução popular que lhes serve de inspiração. Mas tem lá, cada um, sua luz própria, cintilando a forma dos contos, surpreendendo-nos, um sem-número de vezes, com seus desfechos desconcertantes, como se já não bastassem os inesperados da trama que vai juntando as palavras e pondo à mostra os acontecimentos. Assim, desde o encontro de Iên (o escravo) e o pajé Zu Munducu no Abaribó (o lugar fictício da “liberdade, calaçaria, igualdade, magia, dançarás e alegria”), onde vão se misturando raças e costumes dos protagonistas, narrado no primeiro capítulo, passando pela história da voluptuosa Isabel e sua máscara veneziana (onde se revela que a cidade de Belém, devido aos rios e canais que abrigava, chegou a ser cogitada de ser transformada em uma nova Veneza), até o poema cheio de melancolia de Pedro Viriano no já abandonado horizonte do Abaribó, todo este Sertão do Reino é uma reconstrução daqueles dias de luta vistos pelo olhar lançado na gente comum, mas, e acima de tudo, um trabalho primoroso na arte das palavras, amorosamente entalhadas para encantar, emocionar, enfim, arrebatar o leitor.
Vital Lima

Serviço:

Sertão do Reino
Marcos Quinan
Scortecci Editora 
Ficção
ISBN 978-85-366-6064-6
Formato 14 x 21 cm  
148 páginas
4ª edição - 2019

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