DESCAMINHO - A BOCA DO CACHORRO / Alexandre Gennari

Descaminho - A Boca do Cachorro” revela o nó entre o contrabando e o tráfico de drogas e armas no Brasil. O relato, baseado em fatos reais, passa por São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Península do Maraú (na Bahia), Foz do Iguaçu, Belém do Pará, Miami, Paraguai, Colômbia, Abdijan e Saint Maarten. Diversos narradores se alternam para contar a história, o que aproxima a narrativa de um documentário cinematográfico.

O principal narrador é um piloto brasileiro formado na melhor escola de aviação dos EUA, um personagem misterioso, apaixonado, politicamente incorreto, que convive com um assassinato e com a questão de o que nos torna capazes de matar um semelhante. Mais do que uma história de crime ou de ação, “A Boca do Cachorro” é um relato humano, repleto de paixão e fúria. “Descaminho” é uma obra composta por dois livros: “O Sorriso do Gato”, lançado em 2012, e “A Boca do Cachorro”, lançado em 2013. “Eles podem ser lidos em separado” afirma o escritor Benedicto Luz e Silva, que assina o prefácio da obra, “mas no conjunto ganham uma nova dimensão.” Em em “O Sorriso do Gato” o autor desvendava segredos sobre o contrabando de produtos importados no Brasil.

“É claro que Garoto não é um nome, é um codinome. Um codinome com data de validade, perecível, que tornou ainda mais difícil o meu envelhecimento precoce. Mas, enfim, era assim que me chamavam no contrabando, onde ninguém tinha nome. Éramos todos fantasmas de nós mesmos, sempre escondidos atrás de nossos codinomes. Por isso, quando gente como nós, eu e os meus companheiros, morre ou desaparece no mundo, não deixa marcas, não deixa pegadas visíveis. Nossos feitos, nossas paixões, nossos erros e nossos acertos, desaparecem junto com os fantasmas que nós fomos. Ninguém vai nos enaltecer como Homero fez com Aquiles e Ulisses.

Daí a necessidade de contarmos essa história, para que, por meio dessa nossa lembrança imprecisa, de alguma forma, esses codinomes fantasmas ganhem um pouquinho da posteridade a que têm direito. É como se esse relato se tornasse as lápides destes codinomes anônimos, e que essas lápides saíssem voando pela cidade durante a noite, como entes de pedra mal-assombrados, destinados a assustar, pra sempre, as pessoas que as leem, como vocês, por exemplo.”

A própria estrutura narrativa de Descaminho já revela os antagonismos viscerais que Alexandre Gennari desenvolve sobre a sociedade dividida que focaliza. Um mundo cheio de intenções e necessidades inconciliáveis. Numa ambivalência em que alguns personagens estão inseridos no positivo e outros no negativo, cada qual pensa apenas em se dar bem e sobreviver. Nada os une e tudo os separa, ao refletirem sobre os fragmentos dos pequenos mundos narcísicos em que vivem. Justamente por isso, embora as duas partes do livro (O sorriso do gato e A boca do cachorro) possam ser lidas em separado, no conjunto ganham uma nova dimensão, ao se complementarem, como a dupla face de toda manifestação humana.

Como em sua obra de estreia, temos aqui uma mistura intensa de realidade e ficção. O autor aprofunda o campo semântico do fluxo narrativo, transposto nas diversas linguagens individuais. Dessa multiplicidade é que ele procura tirar uma possível compreensão dos fatos concretos e contraditórios, ao virar tudo pelo avesso. É da alternância de enfoques que Alexandre Gennari, pela imaginação, recria ficcionalmente os elementos sociais e psicológicos. Não apenas como um documentário reconstitutivo, mas principalmente como uma reflexão existencial esclarecedora, ao explorar de forma direta a surpreendente simultaneidade que as mesmas lembranças suscitam nos diferentes personagens. No entanto, que não haja nenhuma dúvida na leitura de Descaminho: ao confrontar o melhor e o pior de uma época, o autor traz à tona uma visão crítica dos mecanismos que regem as relações entre os indivíduos e as organizações criadas por eles.

O destino geral encontra-se condicionado por forças que privilegiam alguns e escravizam a grande maioria. Daí que, mesmo vivendo entre riquezas, os personagens não chegam nunca a realmente possuí-las. Todo o sonho de estabilidade e progresso acaba minado pelo seu contrário, que vive das ambições destrutivas e fazem do efêmero e do impermanente a própria possibilidade de prevalecer. Todos são vítimas e não beneficiários do sistema, é isso que Alexandre Gennari nos leva a concluir deste Descaminho, tão bem pensado, tão bem realizado. Essa é mais uma vitória em sua carreira literária.
Benedicto Luz e Silva

Alexandre Gennari nasceu em São Paulo em 1963 e hoje vive entre a capital e a cidade histórica de São Luiz do Paraitinga. Estudou jornalismo na PUC, viajou por 15 estados brasileiros nos anos 80 e trabalhou como coordenador de eventos. Foi cartorário, vitrinista, marketeiro, empresário, muambeiro, vendedor e viveu nos Estados Unidos no final dos anos 90. Hoje é escritor, roteirista e webwriter. Desde 2001 edita o site Webwritersbrasil, sobre comunicação escrita multimídia. Escreveu o roteiro do filme Ouço Passos no Escuro, e seu primeiro livro, Os sons do Divino e o espírito santo do silêncio, teve um conto transformado em filme.

Serviço:

Descaminho
A Boca do Cachorro
Alexandre Gennari
Scortecci Editora
Romance
ISBN 978-85-366-3082-3
Formato 14 x 21 cm
172 páginas
1ª edição - 2013

Mais informações:

Catálogo Virtual de Publicações

Para comprar este livro verifique na Livraria e Loja Virtual Asabeça se a obra está disponível para comercialização.

Voltar Topo Enviar a um amigo Imprimir Home