REENCANTAMENTO DA CIDADE / Eduardo Yázigi

Quem já leu meus livros, textos teatrais, artigos, filmes ou sabe da orientação que dou aos doutorandos, sabe também de minha obstinação doentia pelo espaço público – paixão que alimento com olhos intrometidos, indiscretos e recriminadores. Posso admitir que algum político ou cidadão seja medíocre, mas jamais tolerarei que queira impor sua mediocrização a todos.

Minha relação com a cidade é cheia de sensualidades, vadiando por todos os quadrantes, em dias e horas diferentes, sob sol, chuva, sereno, inverno e verão, de segunda a domingo, de janeiro a dezembro – nem o dia 29 de fevereiro é esquecido. Xereto cada buraco, musguinho, porta aberta, interagindo, sem constrangimento, com caras sorridentes ou suspeitas, numa ciranda de andanças que está longe de me cansar. No bolso um bloquinho de anotar tudinho. Uma coisa posso garantir: o tal de Monsieur Flaneur do Baudelaire de mim é que não ganha! Tem mais ainda: devoro as páginas dos pequenos classificados, baratos e por isso cheios de humanismo a me revelar o mundo dos olvidados: sempre entendi que micro e macro são de uma única substância.

Não acredito em teorias que não se inspiram na veníflua paisagem rueira; que não tenham experimentado um escorregão na Ladeira do Jacú ou se sujado com o carro sem educação que passou espirrando lama. Para mim a discussão do que seja uma civilização urbana e democrática começa, obrigatoriamente, com discernimentos sobre a relação entre o público e o privado. A condição da vida pública no Brasil se acha a milhares de léguas da equação da cidadania, tal o descaso dos governos que tratam usuários da rua como párias, mas onde estes também não ficam sem um mea culpa. Vocês conhecem bem: essa mania de se viver apoltronado, com pipoca ou cervejinha gelada, cada dia com um novo jogo de futebol... Sim, vivo esbravejando com esse espaço público asqueroso. Não consigo conter meu ódio mortal contra tudo o que o ignora, despreza ou rebaixa. Minha obsessão é cansar os ouvidos de quem não quer ouvir – e sobre isso gostaria que não ficasse a menor dúvida.]

Nesta obra Eduardo Yázigi se alinha com o processo universal que busca reverter o desencantamento do mundo, perdido com o abandono dos valores citadinos e civilizatórios. Ninguém pode evitar o cotidiano: ele nos persegue por onde quer que andemos, como se fôsse um prolongamento de nossas pernas. Não é verdade que sob a globalização nada podemos fazer para que nosso dia a dia seja mais cheio de motivações luminosas ao cruzarmos a porta da rua. Não aguentamos mais essa sensação de estranheza em nossa própria cidade e até na rua em que vivemos. Será que os lugares não merecem pelo menos um décimo da energia que dedicamos ao futebol?

Em nome de qual moral temos o direito de criticar o inferno que invade as ruas, se nada fazemos pelo espaço público, ou se somos inclusive fautores da hedionda degradação urbana? Entenda-se: pagamos um dos impostos mais elevados do planeta em troca de um meio imundo, miserável, poluído, trespassado por tiros e abastardado pelo poder público. Neste livro, uma pregação destinada a povoar a cidade de poesia, ora contaminada pela peste negra do automóvel, pela arquitetura sem caráter, pelos rios caudalosos de chorume, pela tristeza dos arrabaldes. Uma dolorosa ladainha sem fim: queiramos ou não, temos de passar a maior parte da vida em cidades.

Não se de trata enfeitá-la com brônzeos querubins, mas de tornar o passo suave, o ar luminoso, as coisas dignas de serem vistas, vividas e aprimoradas para nosso maior gáudio e orgulho cidadão. Por aqui, um punhado de ideias centrais na mira de superar a mediocrização que nos invade de todos os quadrantes: trilhas no interesse de planejadores, administradores municipais, arquitetos, urbanistas, ambientalistas, geógrafos, psicólogos sociais, turismólogos: todos enfim, nascidos e necessários para vivificar donas e donos de casa.

A ordem planetária veio para ficar sob o lema da preservação até o fim dos tempos. Cuidar de nosso planeta antes que ele nos engula por terra abaixo. Os ambientalistas precisam pôr na cabeça que o verde pelo verde nada vale se não for para garantir nossa vida. Qualquer teoria que não inclua cidades nas políticas ambientais é virtualmente estúpida. A cidade deve ser o ambiente por excelência da vida. Um gato? Sim: o ser mais urbano de todos habitantes da cidade. É elegante, belo, delicado, silencioso, educado, super-higiênico consigo e com o chão, não fede, não agride ninguém, não berra e é fiel aos lugares em que vive.

Serviço:

Reencantamento da Cidade
Miudezas Geográficas e Devaneio
Eduardo Yázigi
Scortecci Editora
Poesia
ISBN 978-85-366-3309-1
Formato 16 x 23 cm
380 páginas
1ª edição - 2013

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