IRAPUÃ / Edvaldo Jacomelli

IRAPUÃ, abelha redonda. Muitas pessoas idealizam ir para Nepal, bater um papo olhos nos olhos com Dalai Lama, passar pela Cordilheira dos Andes ou visitar a terra dos maias! Comigo a vontade é de retornar a Irapuã. Esse misto de abelha redonda, mel, semântica e gramática costurados na magia da palavra. Irapuã não é do tamanho de Dubai, não corre por lá o majestoso rio Amazonas, não existe em suas fronteiras nenhum Himalaia, mas gosto demais de ficar em meu território. Fico escutando o sopro divino revolvendo seu solo sagrado, relembrando-me de quando dei os primeiros passos.

Fico assoprando meus sonhos para que eles possam voar dali e buscar conhecimentos. Quando me sento no jardim da praça, defronte à minha realidade, a igreja matriz me leva aos tempos do padre Simão, da cruz que meu pai fez para a igreja. Contorno com meu olhar, ainda que sentado, as redondezas das fazendas repletas de algodão branco, esgarçando luz branca de seus botões floridos. O amendoim saltando do solo. As mulheres com chapéus e pano envolvendo o rosto e o pescoço, tal o frio cortante que estremece seus corpos moldados ao trabalho árduo. Vejo minha mãe subindo na carroceria do caminhão, junto a tantas outras batalhadoras do sítio, em suas lutas diárias na busca do pão para os filhos famintos. Nada havia a ser medido na mensuração do sacrifício. Meu irmão, com seus cavalos que teve que deixar para trás, contra sua vontade, por motivos de saúde de meu pai; roçando suas crinas e envolvendo-os com palavras de carinho. O grupo escolar sendo erigido do buraco vermelho da terra revolvida.

As tábuas embalando as colunas em concreto ainda fresco. Para mim só existe a cidade que rumoreja em meu coração, pulsando meu pensar, insuflando meu querer voltar. Minha terra. Pó de meu pó. Talvez seja porque o solo que nos deu o sopro da vida exige de nós os ossos na despedida do corpo. É um chamado de gratidão por nos ter proporcionado a oportunidade de sorrir, amar, falar, cantar, aprender a ser doce diante das amarguras. Então, a envergadura de nossas vontades se dobra ao silêncio de uma contemplação, sentado no banco da praça. O coreto há de nos penetrar na alma, embalando uma marcha conduzida pela batuta do maestro tenente da polícia militar. O tempo se nos deita a olhos nus, desfibrado em nossas veias, desdobrado nas artérias, abraçado a nossos momentos de saudades.

Essa vontade de desfraldar a bandeira de Irapuã pelas encostas, vales, montanhas em que lá não há. Esse desejo imenso de cultivar o amor pela raiz, pelas entranhas cósmicas da sintonia de seus ventos, do sol mais bonito por detrás da cortina das nuvens ensopadas de luar. Então, meu pai, italiano, ferreiro, com sua agigantada silhueta, vem me apresentar a cidade em que quis que eu nascesse. Dentro do fordeco movido a manivela, meu tio Tito. Ah! Não sei mais se fico, se vou, se me permaneço. Em mim a alma tem sede e fome de ser mensageiro terrestre de Irapuã...
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Não é possível espremer as unhas para que saia de suas entranhas o suco do amor. Principalmente quando o amor é inaudível e grita. E quando esse amor se reverte a um território urbano, de nome Irapuã. Somente é possível espalhá-lo ao seu redor.
Edvaldo Jacomelli - Membro da União Brasileira de Escritores - UBE/SP - São Paulo - SP

Serviço:

Irapuã
Edvaldo Jacomelli

Scortecci Editora
Crônicas
ISBN 978-85-366-3320-6
Formato 14 x 21 cm
180 páginas
1ª edição - 2013

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