HERANÇA / Eunice Barbosa

Quando vamos ler um poema, é natural que não deixemos de lado uma certa preocupação com a literariedade, muitas vezes tomada como principal critério para uma avaliação. Mas, convenhamos: o que queremos quando lemos um poema é encontrar um pouco das nossas buscas, descobrir alguma afinidade com alguns dos nossos segredos escondidos nos subterrâneos das nossas emoções.

E como é bom encontrar poemas que nos levam a esse estado de contemplação e descoberta, menos pelos arranjos de ordem sintática, estilística, fonológica, entre outros valorizados pela crítica, mas principalmente pela revelação do que nos faz humanos, e muito mais ainda pela constatação de que as coisas do coração são de fato as que nos aproximam dos nossos semelhantes e nos ajudam a fortalecer a alma para o enfrentamento do cotidiano cada vez mais opressor e infenso ao amor. E a Eunice Barbosa, do alto dos seus noventa e quatro anos, abençoada pelo dom da poesia e dona da invejável sabedoria da vida, consegue nos trazer toda essa beleza tão rara e tão tocante, em poemas que nos falam diretamente à alma, abordando assuntos corriqueiros, desses que fazem parte do dia a dia de todos nós, mas que não sabemos avaliar para tirar deles as lições que podem nos ajudar na nossa caminhada.

Assim, ela vai falando do menino que vive na rua, a quem pergunta “por que não conta o segredo / da sua felicidade / por não sentir ilusão?”, ou ainda da “Saudade de ser criança! / Criança que não viveu!!”. Fala também, com palavras nascidas da espontaneidade, da terra natal, que pode muito bem representar o que muitos de nós deixamos para trás, com muito do que fomos: “Belo Horizonte, te esquecer não tento, / pois vive em mim o que aí vivi! / Minha grinalda desfolhada ao vento / a ti pertence, ficou tudo aí!!”. Tudo isso sem falar na descoberta da felicidade em simbiose com a natureza, inexplicável felicidade pela força do trabalho: “E no espanto daquela hora / o galo cantou “bom dia”. / E foi assim: de repente, / o céu se vestiu de azul, / o sol se espalhou no chão, / e a vida ficou contente / com a enxada na minha mão.”

Afinal de contas, a verdade é que, a cada novo poema, a cada nova descoberta, rendemos um agradecimento a essa grande poetisa e amiga Eunice Barbosa, por nos ajudar, com essa maravilhosa Herança, a olhar para dentro de nós mesmos, ajudar-nos a rever o que vai em nossos corações, ainda que não consigamos desvendar a grandeza que mora em um coração capaz de fazer nascerem poemas tão ricos em vida, poemas tão sabiamente reveladores das carências das almas que se vão afastando das verdades maiores da nossa razão de ser.
Almiro Dottori Filho - Mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor de Língua Portuguesa e Literaturas, no Colégio Argumento - SP.

Serviço:

Herança
Eunice Barbosa

Scortecci Editora
Poesia
ISBN 978-85-366-3475-3
Formato 14 x 21 cm
160 páginas
1ª edição - 2013

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